Histórias de Defensora com Olga Lemos Cardoso de Marco

Histórias de Defensora com Olga Lemos Cardoso de Marco

Ser voluntário é, acima de tudo, um ato de amor, respeito, compaixão e justiça. Na prática, o serviço de voluntariado representa oferecer, espontaneamente, empatia e solidariedade para colaborar com a melhoria contínua do outro. A abertura a esta possibilidade de doação do tempo individual em prol do coletivo implica, além da evolução como ser humano, na contribuição para construir um mundo melhor. É assim que a defensora pública do Mato Grosso do Sul Olga Lemos atua no Lions Clube. Há quase dez anos, Olga se dedica ao trabalho voluntário na Instituição, que tem como principal causa o câncer infantil. Além de realizar ações sociais em datas comemorativas, como o Natal. “Tenho um projeto há mais de 15 anos do “Natal Solidário”, desenvolvido em bairros pobres na nossa Capital, onde faço um cadastro de crianças entre 0 a 14 anos e no Natal entregamos um brinquedo, uma roupa e um sapato novo, além de um dia de lazer. As crianças entregam as cartinhas até o fim de outubro indicando idade, nome de mãe, tamanho de roupas e sapatos e o brinquedo dos sonhos. É muito legal o resultado”, disse. Confira na íntegra:

ANADEP – Como foi o começo do seu contato com a área do direito e o que levou a senhora seguir esse caminho?

Com 12 anos, eu comecei a trabalhar em um hangar de avião. Eu ficava no almoxarifado catalogando e contabilizando a entrada e saída de peças. O meu próximo trabalho foi em uma farmácia onde eu também ficava no almoxarifado dando baixa nos medicamentos que entravam e saiam. Um dia eu ouvi dizer que tinha um juiz que precisava de uma secretaria e boa datilógrafa, então me candidatei e disputei com mais duas ou três pessoas e consegui a vaga. Logo o juiz viu que eu era boa datilografa e começou a gravar as sentenças em gravadores e eu as datilografava. Botava a fita, ouvia e digitava. Eu também fazia o relatório todinho do processo. Ele me ensinou o modelo e eu destrinchava os autos, fazia o relatório, passava o voto. Ele ditava o voto e depois eu só transcrevia e passava a sentença pronta. Como ele era juiz de uma vara de júri, eu comecei a fazer as sentenças de pronuncias dele. Eu sempre falei que eu não ia fazer direito, mas comecei a gostar quando fui trabalhar com uma senhora chamada Dona Ide. Quando o juiz que eu trabalhava foi promovido a desembargador, ele foi embora para Mato Grosso. Eu entrei para trabalhar com a dona Ide em fevereiro de 74 e, a partir dalí, quando eu comecei no cartório eu vi que eu não ia poder fugir da área do Direito. Eu já estava envolvida. Eu já sabia despachar processos, fazer portaria, editais e várias outras demandas. O primeiro edital de concurso de Oficial de Justiça (em MS) foi feito pela dona Ide. Ela me ensinou a fazer o edital e eu aprendi a fazer todos os atos e fui gostando da área. Ela também sempre me perguntava se eu queria fazer algo novo e assim ela ia me passando os artigos para estudar. Então naquela época eu trabalhei como uma escrevente, só não era juramentada porque não era concursada e ela (dona Ide) também não era. Fomos contratadas pela primeira equipe da Tribuna de Justiça que se instalou em Mato Grosso do Sul. Eu passei a ser contratada e ela passou a ser a escrivã. Depois desses cinco anos de trabalho, quando teve a divisão de Mato Grosso e Mato Grosso do Sul e criou-se a constituição estadual e a instalação do governo em MS, os cincos anos de trabalho passaram a ser reconhecido pelo nosso Estado como tempo de serviço público. Em 1984 teve o concurso – naquele tempo eu tinha o sonho de ser escrivã – eu passei e assumi em uma vara da família.

E quando ingressou na Defensoria Pública?

Eu entrei na Defensoria em 06 de setembro de 1988. Eu prestei concurso entre março e maio daquele ano. Lembro-me que foi promulgada a Constituição e a Defensoria passou a fazer parte das instituições essenciais à Justiça. Na época já existia em nosso Estado a assistência jurídica. Ela foi criada em 1982 e o cargo antigamente era chamado de assistente jurídico. Foi no ano de 1984, se não me engano, que foi transformado de assistente jurídico para defensor público e então foi realizado o primeiro concurso. Teve o primeiro concurso e entraram em torno de 20 defensores. Depois teve um segundo concurso, com mais uns 50 defensores aprovados. E no terceiro concurso, do qual eu faço parte, teve 17 defensores aprovados.  Hoje eu sou defensora pública de segunda instância. Atuo com dedicação e esforço, pois nós temos muitos processos que precisam de celeridade e é aqui na Defensoria que estamos sempre aprendendo e melhorando cada vez mais, buscando sempre o melhor senso de justiça para o nosso assistido e também para a sociedade.

Fora da Defensoria, a senhora faz parte do Associação Lions Clube e lá realiza trabalho voluntário. Como é esta atividade?

Eu faço parte da Associação do Lions Clube já tem quase dez anos. O mote do Lions é servir ao próximo. Uma das pautas em que mais atuamos é em relação ao câncer infantil. Estamos sempre fazendo eventos para realizar encaminhamento para que as crianças não sofram com a doença. Há também outras frentes de atuação, como a preservação do meio ambiente.
 
Hoje nós temos o sonho de que aqui em Campo Grande seja edificado um hospital de olhos para que todas as pessoas tenham acesso ao tratamento oftalmológico, não só as que tenham um plano médico, mas também oferecer um atendimento de primeira  qualidade pra quem é atendido pelo Sistema Único de Saúde (SUS).

Como é fazer parte de ações solidárias?

Eu já prestava serviço voluntário e assistência social fora da Defensoria Pública. O serviço voluntário flui naturalmente quando a gente se depara com situações abrangendo grande número de pessoas “abandonadas” pela sociedade. Vê-se muito isso quando você se depara com crianças sem escolas e sendo impedidas de se matricularem porque os pais não têm endereço fixo ou não têm uma escritura da habitação, uma conta de água ou luz em seus nomes para comprovar o endereço ou a necessidade de um transporte escolar. Quando nos deparamos com mães que precisam trabalhar e não existem creches para seus bebês e filhos menores de seis anos.  O meu despertar para o serviço voluntário nasceu desde que tomei posse como defensora pública e passei a dar o melhor de mim aos hipossuficientes, no que se refere ao acesso à Justiça e aos seus direitos sociais, tão desrespeitados pelo Poder Público.

Qual ação realizada pelo clube marcou sua vida?

Teve um trabalho onde foi realizado um convênio com a Prefeitura de Campo Grande e na época eu estava prestes a receber a presidência do clube. Todos os sábados nós estávamos lá no CEM (Centro de Especialidades Médicas). A prefeitura  fez um mutirão de atendimento oftalmológico. Lá era realizado o encaminhamento de todas as pessoas de Campo Grande e as do interior do estado que vinham para capital fazer as consultas médicas oftalmológicas. Esse foi um momento marcante porque foi um grande atendimento realizado pelo meu clube e nós conseguimos ajudar distribuindo cerca de 50 mil armações de óculos e tivemos um reconhecimento muito grande da sociedade. 

Quais outras ações vocês também realizam?

Com frequência a gente se reúne, monta uma cesta básica e leva para as pessoas. Nós temos também uma ação que já era exercida aqui por outras defensoras públicas, onde todo final de ano a gente fazia uma lista de crianças carentes e distribuíamos entre nossos colegas defensores que atuavam aqui em Campo Grande. A gente montava uma cesta de natal com uma roupa nova, um sapatinho novo e um brinquedo novo. Quando eu entrei no Lions nós passamos a fazer essa ação por meio do Clube e até hoje nós fazemos isso. As crianças escrevem uma carta para o Papai Noel, com o tamanho da roupa, do sapato e um brinquedo que eles gostariam de ganhar. Hoje em dia são cerca de 150 crianças da área do lixão que participam da lista e todos os anos eles recebem a cesta. Isso sempre emociona muito os defensores que participam porque eles lêem cartinhas dessas crianças e são sempre pedidos simples, além de mexer muito conosco é um trabalho muito gratificante.

E, por fim, o que você acha que precisa ser feito para o fortalecimento da Defensoria Pública?

Eu tenho o desejo de ter ainda um dia um núcleo na Defensoria do meu estado sobre o direito à moradia. Lembro que ADEP-MS sempre atuou para que todas as vagas de defensoras e defensores fossem preenchidas e isso é muito importante para a valorização da nossa profissão. Depois que eu entrei, sempre participei dos movimentos classistas junto a nossa associação. Sempre exerci um cargo na associação, até quando ele foi sindicato. Eu acho que a luta pelos nossos direitos é fundamental pra todos nós, na nossa parte classista, junto a nossa associação e vejo que isso reflete na luta pelo hipossuficiente, pela defesa dos direitos dos que precisam. A gente tenta conseguir o melhor para todos. Se a Justiça não é possível pro nosso assistido, ao menos anseio que o meu assistido tenha a satisfação de ter tido a melhor defesa. Então, nós tentamos esgotar todos os recursos a fim de conseguir solucionar o problema do assistido, pra que ele se sinta bem assessorado e com seus plenos direitos de defesa respeitados.